terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O advogado no banco dos réus


Vou mudar o disco. Prometo. Mas antes disso, tocarei uma vez mais o hit Robert Parker aqui no blog. Ele é tema recorrente para qualquer um que escreva regularmente sobre vinhos, de modo que no futuro inevitavelmente voltará à pauta. Contudo, garanto que darei longas férias a Mr. Parker -- até porque há muitas outras coisas interessantes que quero abordar neste espaço. Só gostaria de deixar clara minha opinião sobre ele, porque o que escrevi nos últimos textos parece ter dado a impressão em alguns leitores de que sou contra o famoso crítico americano. Então vamos esclarecer de uma vez por todas o que penso dele.

Primeiro: acho o Parker um grande crítico e considero sua contribuição e seu legado para essa indústria excepcional. Ele abriu caminho para que o trabalho de analisar vinhos seja visto com seriedade e executado seguindo uma metodologia mais consistente. Embora praticamente tudo o que ele faz já existisse antes, essas coisas eram restritas a um mundinho fechado. Com Parker, o especialista em vinhos passou a ser útil e acessível ao consumidor comum. Ele também desbancou famosas vinícolas européias que há muito sobreviviam da fama e da falta de informação, mas que na realidade estavam elaborando produtos medíocres. E acertou em cheio ao recusar publicidade e se negar a degustar qualquer garrafa que seja enviada como presente de vinícolas. Se eu já recebo alguns brindes por aqui, imagino que deve ter fila de caminhão maior do que nos portos brasileiros em frente a sua casa para entregar mimos dos produtores. Parker aceita e bebe, mas não dá nota. Só pontua o que ele mesmo comprou.

Minha principal ressalva a ele diz respeito a algumas avaliações com as quais, humildemente e cá de baixo, discordo. Já tomei produtos com altíssimas pontuações de Parker, sobretudo da Argentina, Austrália, Estados Unidos e Espanha que considerei vinhos exagerados, pesados, sem complexidade e indignos de tantos adjetivos elogiosos. Vinhos de certa forma monótonos, unidimensionais, nada intrigantes e cansativos de beber em grande quantidade. Que eu pense assim não quer dizer nada. É problema meu. Só que alguns grandes especialistas, como Steven Spurrier, da conceituada revista inglesa Decanter, pensam igual a mim. Ou eu igual a eles, para ser mais exato. Essas bolas fora do Parker, no entanto, são exceções. Adoro muitos rótulos desses quatro países e concordo com a maioria das avaliações de Parker ou de seu time de colaboradores para vinhos originários deles ou de quaisquer outros lugares. Mas que às vezes Parker decepciona, decepciona. Pelo menos para mim.

É meio duro de engolir que a Wine Advocate, sua publicação, confira maior nota para um Cobos, da Argentina, do que a um Château Cheval Blanc, de Bordeaux, ou mesmo Romanée-Conti, da Borgonha. O Cobos é bom, é melhor mesmo que muitos franceses consagrados, mas para mim não chega aos pés dos grandes da França – e para não me acusarem de “eurocêntrico”, nem ao mesmo nível dos top da Califórnia, que são espetaculares. Uma coisa é tirar a máscara de vinícolas famosas que só fazem porcaria, o que é louvável. Outra é sair distribuindo 98 pontos por aí quando os melhores vinhos da Europa só conseguem tal nota em safras excelentes. Tenha dó.

Se é assim, por que Parker não substitui o gigantesco estoque de sua adega particular, que ele mesmo admite que é dominada por franceses, por uns malbecões? Até me candidato a dar uma mão. Se quiser trocar comigo, a gente faz negócio. Meio contraditório isso, não? É algo como "você tome o que eu digo, mas eu tomo só francês mesmo porque não sou bobo."

Depois, acho que existem alguns problemas que derivam da enorme influência de Parker, mas que a rigor não são culpa dele. São muito mais culpa das vinícolas e dos importadores e distribuidores de vinhos. Creio que nos últimos dez ou 15 anos emergiu sim uma onda de tentar fazer vinhos com muita fruta madura, concentração e madeira, porque produtos com esse estilo tendem a ganhar notas maiores não só do Parker, como da Wine Spectator e outras fontes de referência. E aí pode acontecer de uma vinícola que fazia vinhos medíocres tomar consciência, investir em tecnologia e melhorar, o que é ótimo. Mas também acontece de produtores que seguiam um estilo próprio e interessante, que tinham uma assinatura, jogarem isso fora para seguir a moda. É culpa do Parker? Não exatamente. A vinícola fez o que quis.

Outra: essa tendência de os consumidores só comprarem vinho pelas notas. “Ah, comprei uma garrafa que tem 93 pontos do Parker”. Ok, a nota tem lá sua utilidade, é um recurso que acho válido, mas um vinho é muito mais do que dígitos. Ater-se aos pontos leva a uma simplificação meio empobrecedora de um produto que é culturalmente tão rico e que mesmo em termos de qualidade é sujeito a muitas variáveis. Se for para comer com um pato assado, por exemplo, prefiro um Borgonha – não importa se tem 87 RP, 85 RP ou sei lá quanto – do que um Syrah australiano de 93 pontos. De novo, não é culpa de Parker que as pessoas utilizem dessa forma o material que ele produz.

Encurtando: é possível olhar a taça meio cheia ou meio vazia. Parker trouxe muitas coisas positivas para o mundo do vinho, mas tem seus pecados e seus efeitos colaterais. Fazendo as contas, acho que o saldo dele está no azul, com folga. Desde o documentário Mondovino, nunca vi um crítico de qualquer assunto ser tão julgado como Parker tem sido. Esse historiador e advogado de Baltimore (essas são suas formações acadêmicas) não sai do banco dos réus. E tome pedrada. Uma ou outra ele talvez até mereça, mas tem havido uma malhação exagerada e injusta.

Parker é meu crítico preferido? Não. Prefiro a Jancis Robinson e Steven Spurrier. Prefiro Eric Asimov. Ou Hugh Johnson. Minha lista é grandinha. Mas nenhum deles tem a mesma importância ou a mesma influência, é preciso reconhecer. Que bom que existe um Parker. Gosto de seu trabalho. Sou a favor do Parker na maioria das vezes. Só não preciso concordar com tudo o que ele diz, nem achar que ele acerta sempre. Alguém acerta?

PS.: Encontrei no site do Parker a transcrição de uma entrevista que o próprio concedeu em 2005. Para a turma que adora o Parker e ao mesmo tempo critica quem é “eurocêntrico”, transcrevo essa resposta do crítico:

“Virtualmente, todo o vinho que bebo por prazer é francês e minha adega reflete isso. Bordeaux, Vale do Rhône, Borgonha (particularmente os brancos), Champagne e, claro, os brancos da Alsácia dominam minha coleção. Eu também tenho um fraco pelos grandes Barolos e Barbarescos do norte da Itália e no Novo Mundo aprecio a riqueza dos melhores vinhos da Califórnia. Mas em grande medida me considero um francófilo e meus gostos vão na direção da cozinha francesa e vinhos franceses.”

E assim ficamos combinados que o clube dos eurocêntricos, do qual este humilde blogueiro faz parte, tem o prazer de considerar Robert Parker como presidente honorário.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Matizes


Se há uma coisa que aprendi é que não existem verdades absolutas em se tratando de vinhos. Estava revendo meus textos antigos, quando ainda publicava este blog no portal da revista Exame, e me deparei com as entrevistas que fiz com Arthur Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP), com o músico e crítico enogastronômico Ed Motta e com Jonathan Nossiter, autor do documentário Mondovino. Três conhecedores, três pontos de vista diferentes. Vou reproduzir aqui alguns trechos do que eles falaram.

Colocar as respostas deles lado a lado gera um resultado curioso: é como um dégradé. Arthur é mais pró-mercado, pró-tecnologia, pró-Parker. É a direita do vinho. Ed Motta já pende para o outro lado. Ele é da turma dos vinhos biodinâmicos. Tem um gosto que foge aos padrões que encontramos nas prateleiras dos supermercados e lojas especializadas. Admite que Parker entende de Bordeaux e Rhône, mas acha que para Borgonha o famoso crítico americano “é uma lástima”. Nossiter é a extrema esquerda – quase xiita. Ataca a globalização do vinho, que torna produtos de países e regiões diferentes muito parecidos. Para ele, Robert Parker e o famoso enólogo-consultor Michel Rolland são os responsáveis por essa padronização nefasta que sufoca os pequenos produtores artesanais.

O diabo é que, ao reler essas opiniões de matizes tão díspares, não consigo deixar de pensar que os três têm lá seu quinhão de razão, por mais paradoxal que isso seja. Sei lá se existe alguém mais certo do que o outro – este blog é naturalmente um espaço de debates e todos podem deixar seus comentários para enriquecer a discussão.

Resolvi resgatar essas entrevistas quando, na última sexta-feira, tomei dois vinhos portugueses com características quase opostas, mas ainda assim ambos excelentes. O Quinta do Vale Dona Maria 2000, um Douro de estilo moderno, com muita fruta, carregado na madeira e 14,5% de álcool. E outro portuga da mesma safra, o Quinta de Cabriz Escolha Virgílio Loureiro, um Dão tradicional, com 13% de álcool, mais acidez, menos fruta e carvalho discreto. E, bem, lá vou eu ficar em cima do muro outra vez, mas preciso dizer que adorei os dois. O Dão ainda era uma criança, atestando que vinhos em estilo tradicional envelhecem mais e freqüentemente melhor. Arrisco dizer que este Virgílio Loureiro chega até 2015 em boa forma e talvez vá ainda mais longe. O Douro estava no auge, prontíssimo para a taça, exibindo uma cor atijolada turva, aromas evoluídos com um toque doce no nariz e muito macio na boca. Se tivesse uma garrafa dessas em casa, não esperaria muito mais para abri-la.

Fico contente de conseguir apreciar os dois. Num dia frio ou com uma comida forte, o Douro iria melhor. Com pratos mais leves, como um pato ou um coelho, o Dão seria perfeito. Da mesma forma, acho ótimo que existam três figuras como o Arthur, o Ed Motta e o Nossiter, com opiniões muitas vezes divergentes – e mesmo assim um ponto em comum: a paixão pelos vinhos. E viva a diversidade. Deixo a palavra com eles.

ARTHUR AZEVEDO

O senhor concorda com as críticas que são feitas ao Robert Parker, de que ele gosta de vinhos concentrados demais, com muita madeira e nenhuma elegância?

Arthur Azevedo: De forma nenhuma. Para desmentir estas críticas basta ler as avaliações que Parker faz dos vinhos de Bordeaux e o seu apreço por vinhos elegantes e complexos. Acredito que criticar o Parker virou moda, mas a maioria das pessoas que adota esta postura não conhece nada de vinho e busca apenas seus 15 minutos de fama. Também o criticam produtores preguiçosos, que nada fazem para melhorar seu produto. Robert Parker é de longe o mais importante crítico de vinho do mundo e o primeiro a mostrar as fragilidades de produtores de muito nome e pouca qualidade. Parker, como qualquer ser humano, pode ter suas preferências pessoais, mas a seriedade de suas críticas e a consistência de suas análises são uma referência segura para os consumidores.

O que acha da crítica de que a tecnologia é responsável por padronizar os vinhos no mundo todo, o que acaba com a diversidade natural de cada região?

Arthur Azevedo: Também discordo frontalmente de quem acha que tecnologia faz mal. De forma geral, a tecnologia ajudou a melhorar significativamente a imensa maioria dos vinhos do mundo. Geralmente, só quem não dispõe de recursos financeiros para comprar tecnologia para sua vinícola é que se coloca contra seu uso. Caso emblemático é o de pequenos produtores que, sem dinheiro para comprar as dispendiosas barricas de carvalho, atacam de forma absurda quem as usa, apoiando-se no argumento surrealista de que as barricas "descaracterizariam o vinho". Pior é que alguns luminares concordam com esta descabida argumentação... Quando o produtor é competente, o uso da tecnologia só reforça o caráter dos vinhos, que podem desta forma expressar de forma cristalina as características e a tipicidade de cada região.

O que o senhor acha de vinhos artesanais?

Arthur Azevedo: Depende do produtor. A imensa maioria é de qualidade duvidosa e só encontra respaldo nos xiitas de plantão. Mas nos dias atuais cada vez menos estes vinhos terão espaço nas adegas dos consumidores mais exigentes e bem informados.

O que o senhor acha da vinicultura orgância? E da biodinâmica?

Arthur Azevedo: É uma questão de fé. Acredito que cuidados viticulturais adequados e uso mínimo de química são extremamente benéficos para a saúde das uvas. Sabe-se que vinhos obtidos de uvas sadias e bem cuidadas têm maior probabilidade de ter boa qualidade. Mas não sou radical nesta questão. Já tive o desprazer de degustar vinhos orgânicos/ biodinâmicos de péssima qualidade. O que me desagrada é ver que muitos produtores usam a biodinâmica como recurso de marketing, sem se preocupar com a qualidade final dos vinhos.

ED MOTTA

É sabido que sua preferência recai sobre a Borgonha, sobre vinhos artesanais e biodinâmicos (vinhos biodinâmicos são aqueles produzidos de forma 100% natural, sem uso de agrotóxicos ou fertilizantes e respeitando os ciclos da natureza). Qual o motivo dessa predileção?

Ed Motta: A Borgonha é o que mais me emociona, tanto branco quanto tinto. São os vinhos mais complexos, ricos de fruta e aromas, que conheço. Minha preferência recai única e exclusivamente sobre a França em geral. Tanto que a única revista de vinho que assino é a Revue Du Vin De France, que fala dos vinhos que realmente me interessam. Francofilia prazeirosamente assumida! Mesmo que eu esteja num país que produz vinho, se tiver um francês top na carta, com certeza vou beber o francês. Ano passado em Milão aconteceu um fato muito engraçado no restaurante Da Berti. Eu estava fazendo uma temporada no club de jazz Blue Note. Quando entrei no restaurante para almoçar, um garçom que ia ao show e me conhecia acabou me apresentando ao dono, que soube do meu interesse por vinhos me convidou para conhecer a adega da família. Era uma coleção de vinhos italianos impressionante. Eu tinha escolhido duas garrafas do Gaja antigas da época do pai, quando o rótulo era amarelo e os norte-americanos ainda não bebiam Gaja. Mas na saída da adega vi uma parede de Clos De Tart do Mommessin todas da década de 60... Não pensei nem um segundo e disse: "o senhor por favor me perdoe mas eu queria esses Borgonhas". Ele me deu umas dez garrafas e não cobrou dizendo que não queria aqueles malditos vinhos! A gastronomia italiana é minha favorita. O paraíso para mim é vinho francês e comida italiana, mas finalizando com queijos franceses.

Você critica muito os vinhos superfrutados e cheios de carvalho -- que você define como "vinhos disneilândia" (adoro isso). Como surgiu essa definição?

Ed Motta: É uma gozação com o gosto gastronômico norte-americano médio, um gosto infantil, de bala, doce, sorvete. Mas isso é febre no mundo todo, na Europa inclusive. Tem produtor da Borgonha mudando o rótulo e o vinho para se parecer com os californianos, australianos etc. Efeitos da Bobalização.

Não há vinhos no estilo muito frutado e com muita madeira que seja bom?

Ed Motta: Se eu estiver num churrasco (como convidado, é claro) e aparecer uma coisa dessas eu acho até suportável. Mas não compro isso com meu dinheiro e não abro com minhas mãos. Agora frutado, eu vou para o vale do Loire, isso é frutado de verdade pra mim. E a fruta da Borgonha ? E da Alsácia ? Essa é fruta que eu gosto.

Qual sua opinião sobre os vinhos argentinos? E chilenos?

Ed Motta: Tem coisa boa. Na Argentina meus favoritos são os malbec top do Achaval Ferrer. Esse tem o frutão, mas é diferente, grande vinho. Do Chile tem o Antyal, Domus Aurea, Pargua. Mas no momento em que vou abrir um vinho para o meu prazer mesmo é sempre França... Borgonha, Loire, Rhône, Jura, Languedoc, Provence, Bordeaux.

Compare Borgonha x Bordeaux

Ed Motta: Os Bordeaux são muito parecidos -- eu gosto, mas não são meus favoritos. Se vou comer um cordeiro, um Bordeaux é das melhores opções, mas talvez prefira um Hermitage ou Cote Rotie. Em Bordeaux os vinhos de Pomerol, St.Emilion e Graves são meus favoritos. Gosto dos Bordeaux que tem alma borguinhone, Trotanoy, Haut-Brion etc. Os Borgonhas têm maior sutileza, nuances, por isso gosto bem mais. Bordeaux eu bebo com prazer, mas nunca compro. Depois da Borgonha na minha preferência vem Loire, Rhône, Alsácia e só depois entra Bordeaux. Mas ainda assim prefiro Bordeaux a qualquer vinho de fora da França.

Qual sua opinião sobre o crítico Robert Parker?

Ed Motta: Eu tenho todos os livros do Robert Parker, as descrições são ótimas principalmente em Bordeaux e Rhône, a praia dele. Na Borgonha é uma lástima, ele não é um grande fã e inclusive tem problemas pessoais na região. Os leitores e repetidores de notas são mais chatos do que o Robert Parker em si. A tabuada me irrita, aquele parêntese do lado dos vinhos com RP ou WS... uma bobagem.

JONATHAN NOSSITER

Michel Rolland é o culpado por essa onda de vinhos padronizados?

Nossiter: Michel Rolland é claramente o líder desse movimento. Pegue um desses vinhos superencorpados de Rolland e me diga: é chileno, argentino, australiano, de que país é? Ninguém consegue distinguir. É tudo igual. Entre os produtores artesanais, há vinhos particulares, que você pode gostar ou não gostar, mas que não têm a pretensão de trazer prazer para todos. São vinhos com defeitos -- e eles não escondem isso. Os vinhos de Rolland tentam sempre esconder defeitos, alcançar um alto nível de perfeição técnica e previsibilidade de produto. Eles estão na lógica de mercado. É outra ambição. O Rolland e seus amigos me acusaram de fazer algo falso e manipulador em Mondovino. Se fosse isso mesmo, eu teria sofrido um processo. Mas nenhum deles me processou -- muitos me ameaçaram, mas ninguém fez. Porque as palavras são deles no filme. O tempo todo [em que a filmagem acompanhou o trabalho de Rolland] o Rolland quis andar no carro dele e fazia visitas de dez minutos a cada vinícola que é sua cliente. Não o vi ficar um segundo no vinhedo. É chocante a arrogância das pessoas que têm muito poder nesse mundo, que estão acostumadas ser tratadas como reis, e como eles estão deformando o conhecimento do vinho do mundo inteiro.

O senhor acha que nenhum vinho feito por Rolland é bom?

Nossiter: O Rolland é um enólogo com conhecimento técnico profundo. É preciso reconhecer isso. Todos os seus vinhos têm nível técnico alto. São vinhos bem feitos, como os filme de Hollywood repletos de efeitos especiais são bem feitos. Nunca vou dizer que você não pode gostar desse tipo de vinho, pelo amor de Deus. Sou pela pluralidade de gostos, de sabores. Mas que alma há por trás? Que intenção humana e cultural está por trás? Porque vinho é sim um produto no mercado, mas também é uma expressão humana e cultural. Então qual a intenção atrás de um filme de Hollywood? Os filmes de Hollywood estão invadindo as telas e a conseqüência disso é que uma produção local, sem os efeitos especiais dos Estados Unidos, não encontra mais espaço no mercado. Porque esse gosto americano está dominando, ficando hegemônico. Com o vinho acontece a mesma coisa, e a cumplicidade de críticos poderosos ajuda. Esse sabor está sendo imitado no mundo inteiro. Esse é um perigo verdadeiro. O que está acontecendo no Brasil, com esses pequenos produtores artesanais, é um milagre. No Uruguai, a situação foi muito promissora há três anos, mas hoje é uma catástrofe. Eles escolheram imitar os padrões argentinos. Alguns vinhos da uva Tannat que antes eram interessante hoje em dia são vinhos argentinos menos bem feitos. Há exceções, mas poucas.

Mas porque é preciso tomar partido? Não é possível gostar dos dois estilos? Os vinhos à Rolland não podem viver ao lado dos artesanais?

Nossiter: A princípio, claro. Mas o problema é que há uma tendência do mundo todo de homogeneização. As grandes vinícolas que seguem um estilo padronizado vão dominar o mercado e impedir que o consumidor brasileiro conheça coisas diferentes. Para chegar num vinho como o de Álvaro Escher as pessoas precisarão de muito esforço. Veja a arrogância de Michell Rolland quando diz que no Brasil só há dois ou três vinhos bons. Alguém que não fala português, não passa tempo aqui, não conhece os produtores locais... isso me deixa bastante zangado.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Cinzas


Ufa! Chegou a quarta-feira de cinzas. A denominação desse dia faz mais sentido do que nunca após um carnaval na Bahia, de modo que este será um texto curto apenas para dizer que estou (meio) vivo -- e para compartilhar algumas breves idéias a respeito de vinhos, claro. Estive em Salvador a convite da fabricante de charutos Menendez Amerino, que detém as marcas Alonso Menendez e Dona Flor. A empresa organizou um belíssimo camarote no circuito do Campo Grande, o mais antigo da cidade. O espaço estava muito bem servido de comidas e bebidas, mas passei ao largo dos vinhos. O máximo que fiz foi tomar meia taça do sempre honesto (e nunca empolgante) espumante básico da Salton. E só.

Para além das discussões inflamadas – talvez inflamadas demais em alguns casos – que os últimos posts levantaram sobre estilo Novo Mundo x Velho Mundo, isso me faz pensar que o mais importante no momento de escolher um vinho é... o momento, justamente. Ok, todo mundo que lê este blog já cansou de saber que acho os rótulos feitos em estilo tradicional mais fáceis de harmonizar com comida. Mas até este “eurocêntrico” aqui admite que há casos em que existem opções melhores da Argentina, Chile ou Austrália do que da velha Europa. Seja por custo/benefício, seja por ser um dia frio que pede um vinhão encorpado, seja porque estes países do Novo Mundo têm mesmo ofertas consistente de produtos maravilhosos que merecem ser conhecidos.

Sim, e também há casos em que outras bebidas podem descer melhor do que vinho. Num barzinho no Rio de Janeiro, perto do mar, de chinelo, sal no corpo e um sol de 40 graus na cabeça... alguém consegue pensar em algo melhor do que um chope bem tirado? Com uma feijoada entre amigos, num lugar simples e despojado, fica difícil resistir a uma caipirinha. E ali, no carnaval de Salvador, com aquele calor e o clima informal – informal é eufemismo --, com a oferta de acarajé e outras comidas típicas, simplesmente não achei lugar para a minha bebida preferida. Fui de cerveja mesmo. Não me arrependi.

Há um outro capítulo nessa história que é a harmonização de charutos com bebidas. Obviamente o camarote da Menendez tinha diversas opções à disposição. É realmente difícil combinar "puros" com vinhos. Apenas os fortificados, como Porto, resistem. Mesmo assim, se eu tiver um grande Porto envelhecido em casa, jamais tomaria junto com charuto. No camarote havia uísque 12 anos e, melhor ainda, algumas cachaças com passagem em madeira. No futuro pretendo fazer um texto mais detalhado sobre compatibilização de charutos com bebidas. Por ora, vou curtir minha quarta-feira de cinzas. Mais uma vez, sem vinho. Hoje nada vai harmonizar melhor do que um belo copo de água mineral.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Gosto não se discute?


Por trás dos dois últimos textos que publiquei, há uma mesma questão fundamental: existe algo como “gosto certo” e “gosto errado” para vinho? Sim, porque uns acham que determinado rótulo merece 98 pontos, enquanto outros consideram que uma nota 90 já estaria de ótimo tamanho; uns elegem o Chile como melhor país produtor da América do Sul, outros defendem a Argentina e um terceiro grupo sustenta que o título deveria ir para o Uruguai.

Em contraposição às opiniões mais contundentes, existe aquele velho papo de que gosto não se discute. Por esse raciocínio, é impossível haver certo ou errado em toda a sorte de preferências -- seja por time de futebol, poesia, filmes, mulheres, quadros, comidas, bebidas ou qualquer outra coisa. Se prefiro guaraná a tubaína, quem pode dizer que estou errado? Se acho um Malbec argentino de 15 reais melhor que um Romanée-Conti 1985, qual a equação matemática, qual a legislação, qual a escritura sagrada ou a tábua dos mandamentos que diz que estou cometendo um equívoco imperdoável?

Bem, bem, bem... vamos analisar um pouco esse tema. A coisa não é tão simples. Acho que gosto é para ser discutido, sim – mais do que isso, é para ser desenvolvido, treinado, aperfeiçoado. Aprendido, enfim. Não se trata de uma posição pedante do “especialista” dizer ao “leigo” o que é bom e o que é ruim. Trata-se de formar um senso crítico e desenvolver uma sensibilidade apurada por prestar muita atenção em algo. E isso vale para tudo, não apenas vinhos. Muitas coisas boas da vida precisam ser aprendidas para serem usufruídas em sua plenitude.

Nenhuma criança entende como um quadro de Picasso pode ser revolucionário ou como um texto de Proust é profundo. É necessário ter certa bagagem para isso. Mesmo exemplos mais prosaicos são válidos. Alguém que segue assiduamente um esporte qualquer, como futebol ou tênis, por exemplo, será capaz de se deliciar com um lance genial, pois saberá que presenciou algo raro, executado com maestria. Aos olhos de uma pessoa que jamais acompanhou com atenção essa atividade, a mesma jogada terá muito menos graça, porque faltará base de comparação.

Moral da história: não é que exista propriamente gosto certo e gosto errado para vinho, mas existem, sim, níveis de desenvolvimento para apreciar essa bebida. Quem toma duas ou três garrafas por ano sem prestar muita atenção, por vezes junto com uma comida que nem combina direito, certamente não terá uma compreensão tão profunda como quem tem no vinho um hobby e está a todo momento lendo, discutindo e experimentando coisas novas.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas o que explica então a disparidade de opiniões entre críticos e especialistas, todos com um currículo que daria para encher um açude? Aí entra uma questão de “escola” e do peso que cada qual confere aos diferentes aspectos que compõem a avaliação de um vinho. Há aqueles que preferem produtos mais encorpados e exuberantes, que seguem um estilo moderno, como Robert Parker (foto acima). Outros, como nosso Ed Motta, são fãs de uma linha tradicional e sutil. O que eles têm em comum, contudo, é que sabem o que fazem -- cada um na sua praia, mas sabem. Se você gosta de vinhos concentrados, com um toque de madeira evidente, fruta explosiva e taninos macios, pode seguir as notas do Parker que a felicidade é quase garantida, salvo um ou outro escorregão até perdoável para quem experimenta uma taça atrás da outra como se fosse uma linha de montagem. Mas se prefere bebidas mais elegantes, leves e com mais acidez, vai quebrar a cara com muito “RP 98” por aí.

Por isso o importante é ir formando seu paladar aos poucos, sem pressa e sem medo de voltar atrás e reconsiderar antigas opiniões. Experimente sempre, prove produtos diferentes, e preste atenção aos defeitos e qualidades de cada um. É muito normal o sujeito começar a gostar de vinhos pelos rótulos mais “porrada”, que são mesmo sedutores e marcantes, e depois mudar para os mais elegantes, sutis, que respeitam mais a comida e são menos óbvios. Comigo foi assim. E ainda acho que tenho muito, mas muito a evoluir.

Se você aprecia vinhos, discuta seus gostos, sim. Não para ter razão ou deixar de ter, muito menos para impor seu ponto de vista, mas simplesmente pelo prazer de debater um assunto tão interessante – e para continuar aprendendo sempre.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Argentina vs Chile: quem é melhor?

O último texto (“Soy Loco por ti, Argentina” – ver logo abaixo) provocou certa polêmica, e é sempre bom quando os leitores se manifestam mais ativamente. Mesmo se não concordo com os argumentos de um ou outro, ainda assim fico feliz por criar algum burburinho. A possibilidade de interação é o grande barato dos blogs e o que torna esse novo tipo de veículo tão envolvente. Pelo nível dos comentários percebo que tem gente que entende do assunto lendo o Carta de Vinhos. Muitas vezes as informações e experiência que os leitores compartilham é o melhor conteúdo disponível nesta página virtual, muito mais enriquecedor do que eu sozinho poderia oferecer. Ainda bem.

Uma coisa puxa a outra e chego ao post atual, que também é um tema controverso. Então lá vai: que país faz os melhores vinhos da América do Sul atualmente? Não sou dono da verdade, por isso fiquem todos à vontade para opinar. Mas também não vou ficar em cima do muro.

Comecemos pelo óbvio: o Brasil não é. A produção nacional melhorou muito, mas ainda estamos nitidamente engatinhando. O único tipo de vinho em que o Brasil está à frente do resto do continente são os espumantes.

Depois, o Uruguai. Gosto de diversos rótulos uruguaios. O Prelúdio, por exemplo, é ótimo, muito elegante e parece evoluir bem na adega. Contudo, embora tenha simpatia pela produção local, não acho que o troféu deveria ir para o Uruguai. A quantidade de vinhos realmente bons é limitada e a qualidade média ainda poderia melhorar. A uva-símbolo do país, a Tannat, é bem interessante, só que sozinha não faz verão. É preciso desenvolver outras variedades e melhorar os cortes. Recentemente tomei um Pisano Tannat RPF 2002 que confirmou uma impressão que muitas vezes tenho de produtos feitos dessa casta. Mesmo sendo um rótulo relativamente simples, apresentava ótima estrutura e agradeceu os cinco anos de envelhecimento. No entanto, a fruta ficou num tom meio baixo, um pouco desvanecida, tanto que a madeira dominava demais o nariz e a boca.

Por eliminação, chegamos a Chile e Argentina, sem dúvida as grandes potências vinícolas da América do Sul. Seus melhores rótulos são reconhecidos e admirados internacionalmente, enquanto os produtos básicos e intermediários podem ser excelentes custo/benefício. Esses países divididos pela cordilheira dos Andes nutrem uma rivalidade histórica, que agora se repete nos vinhos com toda a força.

E aí, quem é melhor? Vamos por partes.

O Chile começou a revolução da qualidade um pouco antes, lá pelo final da década de 80. A Argentina, quase dez anos depois. Em compensação, o ritmo portenho andou mais ligeiro. É impressionante o salto que Mendoza deu, digamos, entre o que se fazia em 1998 e o que se faz hoje. Foi da zurrapa para o vinho.

Ambos países adotaram uvas francesas que até então ocupavam um papel secundário e elevaram-nas a uma posição de destaque. O Chile foi de Carmenere, uma variedade de Bordeaux que estava quase extinta e foi redescoberta em alguns vinhedos chilenos misturada à Merlot; a Argentina elegeu a Malbec, também francesa e igualmente pouco prestigiada em sua terra natal. Acho que as duas variedades originam, sozinhas ou em cortes, vinhos muito bons e cada qual com um caráter bem particular. Mas, na minha opinião, aqui quem marca ponto são os argentinos. Hoje os vinhos de Malbec são, na média, melhores que os de Carmenere em todos os níveis, desde os produtos básicos até os top. Repito: na média. Há excelentes exemplares de Carmenere e há Malbecs péssimos, monótonos e concentrados demais. Só que temos mais coisas razoáveis de Malbec e, sobretudo, os rótulos superpremium dessa variedade batem a maioria dos superpremium de Carmenere (até porque há poucos; a Carmenere é mais usada em blends mesmo). No Chile, a uva tinta de melhor qualidade ainda é a universal Cabernet Sauvignon.

Em diversidade climática, o Chile leva certa vantagem. O país é aquela tripa estreitinha, mas é comprido à beça (são 4 630 quilômetros de norte a sul e apenas 430 quilômetro entre o ponto mais largo de leste a oeste do país). Isso faz com que passe por muitas latitudes e, conseqüentemente, apresente climas muito diferentes. Há terrenos adequados para praticamente qualquer tipo de uva. De fato, Cabernet Sauvignon, Syrah, Carmenere, Merlot, Pinot Noir, Cariñena, Chardonnay, Riesling e Sauvignon Blanc estão todas gerando rótulos de alto nível no Chile. Até a Malbec vai bem: o Viu Manent Viu 1 é um produto excelente feito com essa casta.

Já a Argentina usa e abusa da plantação em montanhas para que o frio da altitude compense o calor excessivo da semi-desértica Mendoza. É um recurso não só válido como louvável e que está dando resultados. Ainda assim, a maioria das garrafas argentinas é marcada por uma potência e concentração típicas de regiões muito ensolaradas e quentes.

Claro, tudo isso é teoria. O que vale mesmo é na taça, certo? E na taça o Chile ganha por um motivo principal: os bons vinhos chilenos são mais elegantes, mais refinados. Os argentinos podem ser excelentes, mas têm a mão pesada. Isso não é um fato indiscutível. É apenas minha opinião pessoal.

Diversos especialistas respeitados dizem que a Argentina logo, logo, vai superar o Chile – na verdade, muitos acham que já superou. A Argentina tem maiores extensões de áreas cultiváveis, mais recursos financeiros, atraiu investidores e enólogos internacionais de peso e deu um salto inacreditável de qualidade num período curtíssimo. Pode ser. Mas estou falando de hoje. E hoje eu prefiro os vinhos chilenos.

De novo – já que o assunto é polêmico, convém deixar minhas opiniões bem claras – isso é uma média. Muitos rótulos argentinos são absolutamente fantásticos e alguns são inclusive elegantes. Achaval-Ferrer, Cobos, Nicolas Catena Zapata, Cheval des Andes e Iscay, entre alguns outros, são bons demais para o meu gosto. Só que do lado de lá da cordilheira temos Don Melchor, Seña, Viñedo Chadwick, Montes M, Montes Folly, Clos Apalta, Domus Aurea, Casa Real, Almaviva e outros tantos – mesmo linhas intermediárias como a Terrunyo, da Concha y Toro, chegam a um patamar de qualidade bastante elevado no Chile. Para não falar dos brancos, como o ótimo Sol de Sol (chardonnay), para mim o melhor produto dessa uva na América do Sul.

E para você, qual o lado preferido da Cordilheira dos Andes?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Soy loco por ti, Argentina


Já faz tempo que o renomado crítico americano Robert Parker, de longe o mais influente do mundo, trabalha com uma equipe de colaboradores fixos. Também, pudera. Como um único ser humano conseguiria analisar e dar notas a milhares e milhares de vinhos provenientes de todas as principais áreas vinícolas do globo? Não diria “haja fígado”, porque em degustações profissionais não se ingere a bebida, mas “haja nariz” e “haja língua”. Por isso, Parker concentra-se em algumas regiões de sua preferência, como Bordeaux, Rhône e Califórnia. O resto ele terceiriza. Muita gente não sabe, mas Parker nunca deu uma cheirada sequer em diversos rótulos da Borgonha, do Piemonte ou de Portugal, por exemplo, que as importadoras ostentam em seus catálogos com indicações como “RP 92” ou “RP 87”, seguindo a tradicional escala de 100 pontos.

E foi assim que os vinhos da América do Sul acabaram entregues ao julgamento de Jay Miller, o sujeito com cara de maluco-bonachão da foto aí de cima (por sinal, Miller é PhD em psicologia). É ele quem dá as notas e faz os comentários para as garrafas do Chile e da Argentina que são analisadas na Wine Advocate, a publicação de Parker. Pelo que Miller tem escrito, imagino que não tardará em ganhar uma estátua em Mendoza. O crítico tem sido uma mãe para nuestros hermanos. Na última bateria de degustações, ele disparou uma saraivada de notas altíssimas como nunca se viu por aqui: choveu 96 pontos para vários rótulos e um punhado foi agraciado com 98 pontos.

Para ter uma idéia do que isso significa, o mitológico Château Margaux, um dos ícones máximos da França, só recebeu nota igual ou superior a 98 em sete safras (2005, 2003, 2000, 1996, 1990, 1953, 1928) dentre 49 analisadas por Robert Parker. Eis que a argentina Viña Cobos, que começou a engarrafar seus vinhos em 1999 – é um bebê de fraldas em termos de vinicultura --, já tem três rótulos com essa pontuação que é usada para produtos que flertam com a perfeição. A também novata Achaval-Ferrer, fundada há dez anos, ganhou de Miller um 98 pontos (para o Finca Altamira 2004), um 97 pontos e um 96 pontos. E Nicolas Catena, patriarca da vinicultura de qualidade em Mendoza, mas também um novato em termos mundiais, levou dois 98 pontos.

Não quero desmerecer a notável evolução dos vinhos argentinos, mas vamos devagar. As três vinícolas mencionadas acima são mesmo excelentes e possuem, todas elas, rótulos de respeito. Contudo, acho que as notas estão infladas. Basta comparar as resenhas dos rótulos de Mendoza com as de regiões bem mais tradicionais e sofisticadas, como Borgonha e Piemonte, para ficar claro que Miller está generoso demais. Um detalhe que me deixou especialmente cético é a longevidade que o crítico estima para os rótulos argentinos. A recomendação é beber o Nicolas Catena Zapa 2004 até – pasmem – 2058! Uau... poucos franceses chegam a 50 anos. Do Achaval-Ferrer, ele diz que “está confiante que vai evoluir da mesma maneira que um Bordeaux premier grand cru”. Confiante baseado em quê? Para os Cobos que estão no mercado, Miller foi um pouquinho mais moderado: estarão bons até 2030.

Acho temerário fazer essas afirmações por três motivos. Primeiro por não haver histórico de evolução de vinhos premium na Argentina, pois a vinicultura de ponta tem cerca de 15 anos no país. Segundo porque tampouco há histórico que comprove uma evolução tão longa de vinhos de Malbec, casta que está presente, sozinha ou em corte, em todos esses rótulos. E, três, porque o que se viu de evolução dos vinhos argentinos e chilenos feitos de forma “moderna”, com técnicas como a microoxigenação, até agora não chega a entusiasmar.

Talvez eu esteja errado e Miller seja um visionário. Temos que esperar alguns anos para ter certeza. Mas minha interpretação é que os produtos da Argentina são muito concentrados, seguindo um estilo que agrada a “escola Parker”, que preza a força sobre a elegância. Por isso entusiasmam tanto quem reza por essa cartilha. Por isso também o Chile, embora tenha ganhado altas notas de Miller, não teve nenhum vinho que chegasse aos 98 pontos – os rótulos chilenos são, na média, mais elegantes do que os argentinos.

Acho que a vinicultura da Argentina evoluiu muito e pode vir a figurar entre as melhores do mundo. O que falta para isso é um senso maior de leveza, de sutileza. Esse movimento em favor da elegância já começou em Mendoza, mas ainda está longe de se completar. Além disso, os grandes franceses, italianos, alemães (brancos) e espanhóis têm um toque adicional de complexidade -- definida como riqueza e diversidade de aromas e sabores não-convencionais -- e uma capacidade de envelhecer que o Novo Mundo ainda precisa provar que algum dia conseguirá alcançar.

Para alguns críticos, infelizmente, o entusiasmo de sentir uma bomba de frutas em compota na taça é tão grande que nada mais importa.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Mise en bouteille au Brasil


Com perdão da lista de estereótipos que segue, no país do futebol, do samba e da cachaça, até onde a produção de vinhos pode ir? No último texto, questionei se conseguiremos elevar o tipo de fermentado de uvas que fazemos melhor – os espumantes – a um novo patamar de qualidade, seguindo exemplo do que Chile e Argentina vêm fazendo com seus tintos há alguns anos. Não me arrisquei a dar uma resposta definitiva, mas acredito que sim, os produtores da Serra Gaúcha têm condições para chegar lá em médio prazo. Torço para que cheguem mesmo.

Semana passada tomei o Casa Valduga Brut 130 anos, um produto premium feito pelo método champenoise, e fiquei ainda mais convencido disso. Trata-se de um espumante para comida: muito encorpado, cremoso, com aromas complexos de tostado e frutas secas. A única crítica que faria é que faltou um pouco de acidez para balancear o conjunto, tornar a bebida menos pesada e deixar aquela sensação de "quero mais" na boca. Mesmo assim, é um vinho sério, que vale cada centavo dos 45 reais que paguei pela garrafa. Tem uma proposta quase oposta ao do ótimo Chandon Excellence, que é muito leve, seco e quase austero – um produto que dá para beber de garrafa, porque é ótimo e não enjoa jamais. É bom ver que conseguimos produzir espumantes em vários estilos diferentes.

Miolo, Salton, Cave de Amadeu, Casa Valduga, Chandon e vários outros estão fazendo um trabalho competente, que merece aplausos e me deixa otimista. Mas de vez em quando tomamos um champanhe de verdade, ou aparece um rosé vagabundo nacional por aí, e nosso otimismo é temperado por uma saudável dose de realismo. Ainda temos bastante a melhorar. A boa notícia é que provavelmente podemos.

Só que nem só de espumantes se faz o mundo dos vinhos. E o resto? Não gosto de nacionalismo cego, mas tampouco gosto de quem se recusa a olhar para frente. É obvio que a vasta maioria do território nacional não tem clima adequado à produção de rótulos de qualidade. Mas com o avanço das técnicas de manejo dos parreirais e de vinificação, com o mapeamento de novas áreas para o plantio, com a seleção de variedades de uva que se adaptam melhor a determinados terrenos e com a consultoria de enólogos respeitados internacionalmente, podemos avançar. Nos espumantes provavelmente conseguiremos avançar mais do que nos demais tipos de vinho, mas isso não significa que não chegaremos a fazer tintos e brancos de bom nível. Na verdade, já temos exemplares bem razoáveis.

Entre os tintos da Serra Gaúcha, a crítica que faço é que, aparentemente, as grandes vinícolas vêm tentando perseguir um estilo muito “internacional” – vinhos encorpados e concentrados, com aromas de geléia e frutas doces, supermaduras. Entende-se, porque rótulos assim são apreciados por críticos influentes e por uma fatia grande dos consumidores. Ninguém investe no que não está vendendo. Vinho é um negócio e o mercado é rei. O problema é que se o clima semi-desértico de Mendoza ou a ensolarada Austrália geram produtos hiperconcentrados e alcoólicos quase naturalmente, na úmida e tantas vezes nublada Serra Gaúcha, por outro lado, a vocação “natural” seria de vinhos mais leves, mais elegantes, mais europeus. A moda é pendular e em algum momento esse estilo clássico voltará com força. Entre os conhecedores de verdade, aliás, nunca deixou de ser o predileto. Se não for comercialmente viável fazer todos produtos top com mais ênfase no refinamento do que na potência, que pelo menos cada grande vinícola tenha um rótulo assim. Fica a sugestão.

Já no Vale do São Francisco, onde empresas como a Vinibrasil fazem um trabalho ousado e pioneiro, a coisa é diferente. Posso estar errado, mas me parece que lá seria possível buscar um estilo de vinho bastante encorpado para os rótulos mais caros, pois o sol até em excesso da região gera uvas com muito açúcar. Além disso, o Nordeste parece ter vocação para produzir vastas quantidades de tintos, brancos e espumantes simples e frutados – sem pretensão, mas que podem ser gostosos e bem-feitos -- para vender a preços populares.

Para fechar, os brancos. Nessa categoria, até agora não bebi nada melhor no Brasil do que o chardonnay e, depois, o sauvignon blanc da vinícola Villa Francioni, da região serrana de Santa Catarina. Fiquei surpreso pela qualidade alcançada em tão pouco tempo. Essa é uma área vinícola nova que está mostrando ótimo potencial. Esses brancos não fazem feio frente a rótulos muito bons do Chile, Argentina e Uruguai.

Se fosse escolher os melhores vinhos nacionais, acho que colocaria o Salton Talento como tinto campeão; o Villa Francioni Chardonnay como o branco top do país; e Chandon Excellance como nosso espumante que melhor cumpre sua proposta. Mas essa não é uma lista definitiva e pode mudar dependendo da safra. Todos esses produtos têm concorrentes fortes colados em seus calcanhares. Acho que quem se distanciou mais e abriu vantagem em relação aos rivais são os brancos da Villa Francioni. Neste momento não consigo lembrar de outros produtos brasileiros que cheguem muito perto.

Já existem bons vinhos nacionais, coisa que era difícil encontrar há apenas dez anos. Estamos evoluindo, e bem. Acho que em um futuro não muito distante teremos coisa ainda melhor. Creio que teremos ótimos tintos, mas também que vai ser difícil chegar ao topo do topo nessa categoria. Contudo, suspeito que poderemos, sim, dizer algum dia que temos "um grande espumante brasileiro". Nesse ponto, já somos tão bons ou melhores que quase todas as potências vinícolas do Novo Mundo. Por que não seguir evoluindo e tomar a dianteira nesse mercado?