segunda-feira, 23 de junho de 2008

Portugal – I


Quem ainda não desistiu de dar uma passada pelo blog já percebeu que outros compromissos me impediram de atualizá-lo por um período muito longo. Pois foi justamente um desses compromissos – certamente o mais prazeroso dos últimos tempos - que agora me obriga a tomar vergonha na cara, espanar a poeira e resgatar o Carta de Vinhos do estado de hibernação em que se encontrava.

Como já está evidente que não terei tempo para escrever textos longos, tentarei uma mudança de estilo: atualizar o blog com maior freqüência, talvez duas ou três vezes por semana, porém me estendendo menos de cada vez. O que, afinal, é a linguagem-padrão dos blogueiros, que vivem na instantaneidade da internet.

Mas vamos ao que interessa. A convite da Dão Sul, um dos maiores grupos vinícolas lusitanos, e da importadora Expand, passei quatro dias em Portugal, cruzando o país para conhecer as principais regiões produtoras de vinho. Enfrentei uma agenda complicadíssima, que me obrigava a comer sem parar a maravilhosa culinária desse país. E dá-lhe leitão da Bairrada, queijo da Serra da Estrela, bacalhau preparado de várias formas, bochecha de porco, alheiras e embutidos típicos, polvo e outros frutos do mar, azeites extra-virgem, e, claro, sobremesas à base de amêndoas e ovos... um sacrifício atrás do outro. Pior: para cada prato sempre havia ao menos um – quando não vários -- rótulos para acompanhar. Um massacre.

Brincadeiras à parte, o fato é que considero Portugal um verdadeiro prodígio enogastronômico. Um país tão pequeno geograficamente e em tamanho da população conseguiu desenvolver uma culinária riquíssima – melhor dizendo, várias culinárias, pois cada recanto tem seus pratos únicos. Com os vinhos, ocorre o mesmo. Visitei a Estremadura, o Dão, a Bairrada, o Alentejo e o Douro (foto acima que tirei a partir da Quinta das Tecedeiras). Essas são as áreas mais conhecidas, mas Portugal tem 34 regiões vinícolas e mais de 500 uvas autóctones, variedades que só existem por lá. Um tesouro enológico de valor ascendente em um mundo cansado de tantos Cabernets e Chardonnays monotonamente parecidos.

A Dão Sul desenvolve um projeto que ao mesmo tempo moderniza e permite que essas peculiaridades de Portugal continuem vivas – e que sejam conhecidas fora das fronteiras lusitanas. O grupo, agressivo e moderno nos negócios, está comprando ou construindo vinícolas em todas as principais áreas produtoras. Em cada local, procura explorar as castas típicas e respeitar o estilo regional, porém adicionando um toque internacional que é marca do enólogo e sócio Carlos Lucas.

Desde o simples e saboroso Cortello, um vinho da Estremadura que é vendido no Brasil por R$ 16, até os top Four C, Encontro 1 e Pedro&Inês, todos acima de R$ 300 a garrafa, é possível notar a mão detalhista e a assinatura de Carlos Lucas. Seus rótulos são exportados para os quatro cantos do globo. Assim a Touriga Nacional, a Baga, a Bical e tantas outras uvas interessantes começam a freqüentar as mesas de outros países europeus, asiáticos, dos EUA e do Brasil. Portugal vai voltando a ser uma potência ultramarina – pelo menos na enogastronomia. Sorte de todo mundo e do mundo todo, que se deixa conquistar com prazer.

No próximo texto: o leitão da Bairrada, o queijo Serra da Estrela e os vinhos certos para acompanhar essas iguarias.

sábado, 3 de maio de 2008

Um que a mais


Entardecer do outono. Varanda de casa. O céu azul a perder de vista, uma brisa fresca e constante, o cheiro da terra e das plantas molhadas pela chuva que ontem castigou São Paulo – mas a quem hoje é preciso dar o devido crédito pelo ar mais limpo e pela terra úmida. Da cozinha vem o aroma de um ossobuco que comecei a preparar duas horas atrás. Sinto o alho, a pimenta, o bacon. Estou bem acompanhado por um Dolium Escolha 2005, um branco português da uva autóctone Antão Vaz – de onde eles tiram esses nomes? Branco encorpado, untuoso, com pegada, muito melhor em tardes frescas do que nos dias de calor excessivo de verão. No meio de tanta correria, um momento mais relaxado para apenas deixar-se estar e sentir.

Até que lá vou eu pegar o notebook e escrever mais um texto do blog.

Seguindo o que prometi no último post, o assunto da vez é a dificuldade de beber vinhos realmente bons. Não estou falando aqui dos rótulos caríssimos, dos grandes ícones de Bordeaux, Borgonha, Toscana ou Califórnia. Nada disso. Há ótimos produtos que podem satisfazer mesmo os mais enjoados e exigentes sem custar fortunas. Esse Dolium, que sai ali pelos R$ 80 na importadora Adega Alentejana, é prova disso. Eis um branco muito, muito bem feito, com acidez refrescante que chama para o próximo gole, com fruta e madeira convivendo em harmonia, encorpado e refinado. Com o tempo, os aromas cítricos mais evidentes do vinho cedem lugar a um cheiro que lembra curau e milho verde. Delícia. Já tomei Borgonhas quatro vezes mais caros que não tinham essa qualidade. O Dolium não é, com certeza, um dos grandes brancos do mundo. Com três anos, está na hora exata de ser bebido -- acho que não resistiria muito além dos cinco anos de vida. Mas é um vinho que tem um “que” a mais. Tudo funciona, tudo encaixa, e ainda há algo surpreendente, como esse bendido milho verde no nariz.

Ah, como é raro um vinho assim. E como dá satisfação quando, ao primeiro gole, percebe-se que aquela bebida proporcionará um prazer enorme até a última gota.

Recentemente, tomei um punhado de vinhos que considero que têm esse tal “que” a mais, como o Dolium. São rótulos que indico enfaticamente.

Pelo critério custo/benefício, no topo da minha lista está o Double T 2002 (Vinci), da vinícola Trefethen, um californiano fantástico, com força e classe andando de mãos dadas – juntar potência com elegância é, talvez, o critério básico que para mim faz um vinho ser excelente. Esse corte bordalês tem muita fruta vermelha e cassis, com toques de tabaco, chocolate e especiarias – está tudo ali, direitinho. Com o dólar em baixa, sai por pouco mais de R$ 80, o que o torna talvez a melhor oferta nessa faixa de preço em se tratando de vinhos californianos à venda no Brasil.

O espanhol Roda II 2002 (Expand) é uma mistura de Rioja tradicional com moderno. Muita madeira, mas muita fruta também, criando um conjunto harmonioso e irresistível. Impossível não gostar. Sai por R$ 288,00 – é caro, mas é um senhor vinho. O uruguaio Família Deicas Premier Cru Garage 2000 (Expand) é talvez o melhor tinto da América do Sul que já provei. Para mim, ganha de garrafas bem mais badaladas do Chile e da Argentina. Surpreendente do começo ao fim. Custa R$ 285,00, o que o torna igual ou mais barato do que Clos Apalta, Don Melchor, Cobos e outros medalhões que têm bem mais nome e notas de Wine Spectator – e menos qualidades como bebida.

Outros vinhos que tomei algumas vezes e que para mim também são memoráveis incluem o Tarapacá rótulo negro 2001, que parece um ótimo Cabernet Sauvignon californiano e pode ser encontrado por cerca de R$ 85; o Valduero Crianza 2003 (Grand Cru), belo exemplar da região de Ribera Del Duero, vendido em torno de R$ 100; o Quinta do Crasto Vinhas Velhas – as safras 2003, 2004 e 2005 são todas deslumbrantes. Sai por cerca de R$ 120 a garrafa, mas às cegas bate muito vinho de R$ 400 que tem por aí. Também digno de nota é o Charme, do Niepoort (Mistral), um Douro com elegância da Borgonha. Custa ao redor de R$ 300. E vale.

Esses são todos vinhos que tiveram a felicidade de acertar em cheio, pelo menos para o meu gosto, e por isso ficaram gravados na minha memória da melhor forma possível. Nenhum deles está entre os grandes ou os mais caros do mundo, mas estão entre os meus preferidos. Em contrapartida, poderia citar muitos que decepcionaram, mesmo de produtores de altíssimo nível. Certa vez tomei um Angélica Zapata Merlot 2000, da Catena, minha vinícola preferida da Argentina (seus rótulos são importados pela Mistral, mas esse Merlot não vem para o Brasil, foi comprado em Buenos Aires). Era simplesmente um veludo na boca, rendondo, elegante. Há pouco tempo, quando estive novamente em Buenos Aires, comprei outra garrafa, porém da safra 2002 – teoricamente um ano muito melhor em Mendoza. E eis que o vinho decepcionou: estava pesadão, enjoativo, com uma fruta exagerada e grosseira e madeira idem. Pois é, o Catena errou a mão. É raro com um produtor do calibre dele, mas às vezes acontece. A vinícola tinha uma safra melhor para trabalhar, mas aí extraiu fruta demais, usou madeira demais, sei lá... só sei que na safra pior o Angélica Zapata Merlot estava vários degraus acima de qualidade.

Ou posso citar exemplos de vinhos bem-feitos, mas que não têm o “que” a mais que os tornaria dignos de lembrança. O Nottage Hill Shiraz 2005 (Aurora), da Austrália, é uma boa pedida abaixo de R$ 50. Muito macio e prontíssimo para a taça, mas... falta algo. Você bebe, acha bom, mas passa batido. Não encanta, não surpreende, não tem classe. É bem feito, mas é padrão demais, sem nada especial.

Agora vou olhar meu ossobuco, que a noite promete. E escolher o vinho que deve acompanhá-lo, para não correr o risco de ficar sem assunto para o próximo post.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Sobre Buenos Aires e grandes vinhos


Voltei de uma recente viagem a Buenos Aires com um par de garrafas na mala e muitas considerações a fazer sobre a cultura de vinhos da Argentina. Ou seria o contrário? Bem, as considerações são as seguintes: os portenhos amam vinhos, mas ainda vivem uma fase de transição entre antigos hábitos e outros mais modernos; e a oferta de rótulos argentinos não pára de evoluir.

Explico. Assim que desembarquei em Buenos Aires, o taxista que me levou do aeroporto ao hotel estava com o rádio ligado. O que passava era um programa no qual o entrevistador conversava com algum enólogo para dar dicas simples: por que a temperatura correta de serviço é importante, por que a maioria dos vinhos não deve ser guardada por muito tempo, algumas regras básicas de harmonização com comidas etc. Tudo de um jeito direto e sem pretensão, sem pompa.

O entrevistado – infelizmente não me recordo quem era – jamais soava como um especialista falando coisas esotéricas que só poderiam ser compreendidas após anos de estudo. O que havia ali era um profissional do ramo que mostrava, baseado no bom senso, alguns cuidados para melhorar a experiência com a essa bebida que está tão entranhada na cultura da Argentina.

Mas se o vinho faz parte dos hábitos desse país, ainda assim há necessidade de um programa de rádio como esse? Se há. Bastaram quatro dias em Buenos Aires para que eu não tivesse dúvidas sobre isso. Em um restaurante tradicional (e delicioso) como o La Estancia, a carta de vinhos era apenas razoável e as taças ruins. Aceito ambas as coisas, pois se trata de um restaurante de classe média que permanece há décadas igual no serviço de vinhos -- o que talvez não seja louvável --, mas igual também na estupenda qualidade de suas carnes. O problema mais grave, mas também o mais fácil de arrumar, foi que a garrafa chegou à mesa quente – bem quente.

São coisas da velha Argentina, que durante décadas consumiu enorme quantidade de vinhos oxidados e de baixa qualidade. Hoje o nível médio subiu demais, porém o serviço e os hábitos ainda precisam acompanhar esse salto. Com iniciativas como o programa de rádio que escutei no táxi, acho que é apenas uma questão de tempo para isso acontecer. O próprio garçom do La Estancia, quando reclamei da garrafa quente, reconheceu prontamente o problema e trouxe um baldinho com gelo para fazer a correção. Em cinco minutos, o vinho chegou a alguma coisa próxima dos 18 graus. O velho garçom se desculpou e foi simpático toda a noite. Provavelmente se eu tivesse feito igual reclamação há, digamos, dez anos, teria escutado uma daquelas respostas atravessadas -- “Es asi que se bebe viño acá, hijo.”

A consideração dois é sobre a oferta de vinhos da Argentina. Há lojas e mais lojas espalhadas pela cidade, com uma variedade muito grande de rótulos. Contudo, 95% são de produtos argentinos mesmo. Isso acontece em quase qualquer país produtor. É meio limitante, mas não há remédio. Nem sempre compensa comprar vinhos em Buenos Aires, porque as garrafas que chegam dos hermanos estão entre as poucas que desembarcam no Brasil sem automaticamente triplicar seu preço. Pode acontecer até de determinado produto estar mais em conta por aqui. Vi isso com o excelente Catena Estiba Reservada, um vinhaço que a Mistral negocia por algo ao redor de R$ 150 e que em Buenos Aires muitas vezes sai pelo equivalente a R$ 200. Essa é uma exceção (não a única, contudo). Como a cotação está muito favorável para nós – o Real vale atualmente quase o dobro do Peso --, na maioria das vezes vale a pena trazer garrafas. Só que é preciso pesquisar. Quem sair enfiando na mala tudo o que vê pela frente sem saber quanto custa no Brasil arrisca-se a ficar no prejuízo.

Em relação à qualidade dos vinhos argentinos, já escrevi muito sobre isso recentemente. O nível subiu de maneira espetacular nos últimos dez anos e há um punhado de exemplares maravilhosos de várias uvas -- Malbec à frente, mas também Cabernet Sauvignon e cada vez mais Bonarda, Tempranillo, Merlot, Pintot Noir, Chardonnay, Torrontes e outras. Mas quem preza a elegância sobre a potência ainda precisa garimpar bem para ser feliz.

Como ressalva, vale dizer que produzir vinhos realmente grandiosos não é tarefa fácil nem na Argentina e nem em lugar algum, incluindo aí até a França. Quanto mais você conhece de um assunto, mais chato fica. Eu ainda não conheço tanto assim, mas já estou chatíssimo. Hoje em dia posso gostar de muitos vinhos, mas são poucos os que têm aquela coisa a mais que torna a experiência de bebê-lo realmente marcante, memorável. Na maioria das vezes, algum defeito logo salta à vista e incomoda um pouco.

Foi o que aconteceu com uma das lembrancinhas que trouxe de Buenos Aires, um Finca Los Nobles Cabernet Bouchet 1997 – isso mesmo – da vinícola Luigi Bosca. Pelo tratamento que recebeu, incluindo passagem de 24 meses em barris de carvalho de Troncais, esse pode ser considerado um superpremium de uma época em que quase não existiam vinhos superpremium na Argentina. Estava em forma após 11 anos, era aveludado e elegante, porém a madeira ofuscava completamente a fruta. Uma pena. Era quase como um prato feito com todo esmero e que tinha tudo para ser excelente, até que o chef erra a mão e coloca mais tempero do que o indicado.

Mas a dificuldade de fazer – e, mais ainda, de beber -- grandes vinhos fica como tema para o próximo post. Até lá.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

De volta, com a lente ainda mais distorcida


Quem é vivo, de vez em quando aparece... Após um longo intervalo, o Carta de Vinhos volta à ativa. Nesse hiato em que o blog ficou sem atualização, aconteceu uma coisa importante. Para colocar o assunto em dia e começar a tirar a ferrugem das mãos, vou tratar aqui apenas de uma notícia que diz respeito ao autor desta página virtual e que considero fundamental que todos saibam.


Seguinte: sou o responsável (um dos responsáveis, na verdade) por fazer o próximo catálogo da Expand, que deve chegar aos consumidores até o final de abril. Acho importante dizer isso às claras, para que todos conheçam essa minha nova ligação profissional com a importadora de Otávio Piva de Albuquerque.



Isso reduz minha independência para escrever este blog?


É claro que sim.


Vou procurar separar ao máximo as duas atividades. O blog é o blog, meu trabalho para a Expand é outra coisa. Prometo ser o mais imparcial possível. Se eu tomar um vinho da Expand e não gostar, vou dizer. Continuo achando que os preços cobrados por seus rótulos são muito altos, como infelizmente são altos os preços praticados por todos que comercializam vinhos do Brasil. Não vou deixar de falar de produtos de importadoras concorrentes. Não vou dizer que bebo Rio Sol todos os dias. Mas é claro que tendo um vínculo e desenvolvendo uma relação profissional com a equipe da Expand eu não tenho mais a mesma garantia de imparcialidade de antes. Admito isso.


Vou fazer o possível para erguer um muro entre as duas coisas. Adoro escrever este blog e não vou transformá-lo em um local de propaganda não-declarada. Mas que alguma coisa mudou, mudou. Foi decisão minha e assumo as conseqüências. Assim como é decisão minha tornar isso, vamos dizer, público.


Talvez a imparcialidade e a objetividade jornalística sejam quase uma utopia. Todos somos seres humanos com amizades, inimizades, interesses, mágoas, dívidas, laços pessoais, gostos e preferências. Todos temos nossas crenças e opiniões próprias, subjetivas. A lente através da qual cada um enxerga o mundo tem suas distorções particulares -- sempre tem. Isso vale para pessoas e vale para empresas de mídia também.


É razoável supor que eu não consiga ser 100% imparcial, mas posso tentar ser 100% honesto. Para isso, basta eu não omitir informações importantes. Declarando minhas relações profissionais que podem gerar conflito de interesse com o que escrevo aqui, o leitor tem os elementos necessários para fazer seu próprio julgamento e avaliar se o que declaro está enviesado ou não.

O contrário também vale: o catálogo não deve ser entendido como algo relacionado ao Carta de Vinhos. Acho que desenvolvemos muito conteúdo útil, pertinente e interessante nesse trabalho para a Expand. As informações são precisas e fiz muita pesquisa séria para escrever o que escrevi nas 130 páginas que em breve muitos de vocês terão em mãos. Creio que produzimos um material de referência. Estou orgulhoso desse produto (espero que o resultado final saia mesmo tão bom quanto parece que ficará). Mas é claro que também se trata de um catálogo de vendas -- uma peça de marketing, portanto -- com tudo que isso implica. É algo diferente do que faço aqui no blog.


Bem, por hoje foi isso. No próximo post vamos falar novamente do que interessa -- vinhos -- e perder menos tempo com o autor.

terça-feira, 11 de março de 2008

Para todos os gostos



Tenho sido relapso com o Carta de Vinhos, mas por ora não há remédio para isso. A carga de trabalho está grande e este espaço é um hobby, não uma obrigação. Quando não dá, não dá. A solução definitiva, no entanto, virá em breve. Meu blog já está sendo transformado em um site maior e mais completo, que será feito por mim e por outros dois blogueiros apaixonados por vinhos e gastronomia. É bem capaz de a nova página entrar no ar em abril. Aí, espero, teremos mais braços para abastecer os amigos enófilos com o conteúdo que eles merecem.


Feita a mea culpa, feita a promessa, vamos ao que interessa: os vinhos. Meu consolo é que, se não tenho conseguido escrever sobre eles o tanto que gostaria, pelo menos tenho bebido razoavelmente bem (ninguém é de ferro). Do que degustei nas últimas duas semanas, separei alguns rótulos que acho que merecem comentários. O painel abaixo traz produtos para todos os gostos e para (quase) todos os bolsos, embora, reconheço, a média de preços esteja meio alta. Vamos lá:


Basa Rueda 2006 – Um ótimo branco espanhol do grande enólogo Telmo Rodrigues elaborado com um corte de Verdejo 50%, Sauvignon Blanc 10% e Viura 40%. Custa cerca de R$ 38 na Mistral e vale cada centavo. Bem mais delicado que os Chardonnays cheios de madeira que andam por aí. Tomei no bistrô Allez! Allez!, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Acompanhou divinamente um badejo com molho limão, porque este vinho tem aromas cítricos evidentes, lembra muito lima. O problema é que o Allez! Allez! cobrou R$ 80 pela garrafa. Depois, quando vi o preço na Mistral, bateu aquela sensação de dinheiro jogado fora... até quando vai durar essa mentalidade de margens de mais de 100% para vinhos em restaurante?


Montes Alpha Cabernet Sauvignon 2005 – Um clássico do Chile, vendido na Mistral a cerca de R$ 65. Toda a vez que tomo, lembro por que a Montes é a vinícola que é. Está aí uma excelente opção para o enófilo iniciante que quer começar a botar o pé no mundo dos vinhos sérios. Ou para os enófilos veteranos tomarem toda a vez que quiserem algo bom a um preço que não faz engolir em seco. Uma bela opção, sempre.


Châteauneuf-du-Pape Clos des Papes 2005 – Este é o arrasa-quarteirão que ficou em primeiro lugar na lista dos top 100 de 2007 da Wine Spectator. Significa que é o melhor vinho do mundo? Não, não é. Mas certamente está entre os grandes. A revista conferiu nota 98, que tendo a achar levemente exagerada – mas não muito. Este vinhaço segue um estilo bem internacional, mas tem um refinamento que denuncia sua origem francesa. Absolutamente sedutor, com taninos sedosos e um final longo. Maravilha. Para guardar na adega por muitos anos. Deve chegar a seu ápice daqui uma década, mas é daqueles vinhos que já nascem bons e não precisam envelhecer muito para dar um prazer imenso. Vendido na Premium, de Belo Horizonte, por alguma coisa ao redor de R$ 500 – preciso levantar o preço exato, esse aí é uma faixa de referência. Tomei no Varanda Grill, acompanhando uma seqüência de aves francesas preparadas com maestria pelo proprietário Sylvio Lazzarini. Brilhou com as aves, mas brilhará até mais com um Kobe bife da casa, que é uma manjar.


Corton les Renardes Grand Cru 1999 - Um Borgonha espetacular, que está no auge, pedindo, implorando, suplicando para ser bebido. Se você tem a sorte de contar uma belezinha dessas na adega, pode ir colocando a perdiz para marinar que não é necessário – e nem recomendável – esperar mais nada para abrir a garrafa. Os aromas complexos de terra molhada, folhas e flores secas, cedro e especiarias são o pano de fundo para a fruta madura que faz o ataque inicial no nariz. Enfim, está tudo lá. Felicidade garantida, daquele jeito que só a Borgonha garante. Vendido no Clube du taste Vin por alguma coisa entre R$ 200 e R$ 300.

Châteauneuf-du-Pape Lieux Telegraphe 2004 – Um bom Châteanueuf , que teve nota 94 da Wine Spectator. É menos exuberante e mais delicado do que a média dos vinhos dessa denominação, o que o torna ótima opção para acompanhar muitos pratos. É boa pedida, vinho sério, para conhecedores. Vendido na Expand por R$ 298.

Valduero Crianza 2003 – Vai ser difícil você gastar R$ 95 num vinho e fazer melhor negócio do que com este espanhol da região de Ribera del Duero. Não é um rótulo grandioso ou supercomplexo; tampouco conseguirá envelhecer décadas na adega. Mas é uma delícia, refinado, sensual, equilibrado, nem leve e nem ligeiro – tem tudo no lugar certo. Está simplesmente irresistível e deve permanecer assim por mais três ou quatro anos, pelo menos. É o tipo de vinho que agrada a todos, especialistas ou enófilos de primeira viagem. Da importadora Grand Cru.

Château Fontenil 2003 – Esse Bordeaux é feito pelas mãos talentosas de Michel Rolland, ele mesmo. Muita fruta e exuberância. Ainda novo, vai ganhar com um par de anos na adega e deve beber bem por pelo menos mais uma década. Foi tomado ao lado do Valduero acima descrito e, como ambos são da mesma safra, ficou bem visível o contraste de um produto que já está pronto e que não deve envelhecer demais para um bom rótulo de Bordeaux, que sempre pede um tempo maior de guarda. O Valduero já está no auge, mas o Fontenil claramente ainda precisa repousar um tanto para ficar no ponto. Cerca de R$ 180 na Grand Cru.

Porcupine Ridge Syrah 2005 – Ótima opção da África do Sul numa faixa não exorbitante – custa R$ 50 na Mistral. Muita madeira tostada no nariz, especiarias e um frutão só. Um vinho encorpado, para quem gosta de uma bebida que não passa desapercebida, mas que não descamba para a geléia. Vale a pena, mas para ser realmente um grande custo/benefício precisaria custar uns 15 reais a menos. Em todo o caso, a cada dia que passa, sou mais fã da África do Sul.

Santa Helena Seleccion del Directorio Chardonnay 2005 – Este me surpreendeu positivamente, porque é um produto vendido em grande quantidade no Brasil, disponível nas prateleiras de muitos supermercados. Tudo bem que é o top dessa linha da Santa Helena, mas achei que seria aquele padrão básico de Novo Mundo ruim que quer ser bom: madeira demais e elegância de menos. Bem, havia madeira em quantidade generosa, mas a fruta também acompanhava, a acidez equilibrava o conjunto e aparentemente a garrafa foi aberta na hora certa. E – não menos importante – com a comida certa: um prato de camarão na manteiga e alho. Ficou bom demais. Um vinho para os adeptos do estilo moderno. Para quem ainda está na fase de não gostar de brancos (é, tem isso) essa garrafa pode ser um bom começo para cair na real. Vendido por cerca de R$ 50 em qualquer esquina.

Steemberg Semillon 2006 – A uva Semillon é excelente alternativa para os amantes de Chardonnay que querem variar um pouco, pois é uma variedade branca que também aceita bem um tratamento com carvalho. É o caso deste exemplar, que consegue ter presença de boca para acompanhar muitos pratos, mas não é pesado. Tem a tal da “mineralidade”, leveza e um aroma exótico ao fundo que lembra derivados de petróleo, tipo querosene – isso mesmo – ou trufas e que é mais comum de se perceber em brancos de Riesling. Para mim, esse tipo de coisa é o cartão de visitas de um vinho de verdade, o que mostra que a coisa é séria e que você encontrará naquela garrafa algo que nenhum suco de frutas traz. Bela pedida a R$ 70 na Expand.

Coppola Blue Label Merlot 2003 – Californiano do famoso cineasta. Bebido às cegas, ninguém poderia duvidar que se trata de um Novo Mundo: é aquele doce só no nariz. Mas, para quem gosta do gênero, vale a pena. Um rótulo sedutor, macio, aveludado, como um bom Merlot deve ser. Bom vinho de meditação, para tomar sozinho pensando na vida. Sai ali pela faixa de R$ 150. Tomei no Rubaiyat, mas esqueci de anotar o importador.

Pol Roger Sir Winston Churchill 1996 – O melhor vinho que tomei este ano. Ok, estamos em março, mas... que vinhaço! Pode incluir 2007 aí, 2006, 2005... Champanhe com C maiúsculo. No Brasil, uma garrafinha dessas sai lá pelos R$ 700. Elegância, complexidade infinita, acidez certa. O que dizer? A leveza e graça de uma bailarina com a força de um peso-pesado, tudo junto na mesma taça. Se tivesse dinheiro para beber esse néctar todos os dias, beberia. Como, aliás, fazia o estadista inglês que era fã desse cuvée e que deu nome à sua versão atual. Churchill costumava apreciá-lo já no café da manhã. Gênio, gênio.

Bella Vista Brut Franciacorta – Este é o champanhe italiano, feito com as mesmas uvas empregadas em Champagne e com o mesmo método de produção de segunda fermentação nas próprias garrafas. Nada a ver com esse monte de Prosecco de décima categoria que infesta os supermercados (embora existam bons e até muito bons Prosecco). Vendido por pouco menos de R$ 150 na Expand, traz uma leveza, elegância e complexidade muito difíceis de serem encontradas em um espumante de fora da famosa região francesa. Vale conhecer.

Cloudy Bay 2005 – Este é o vinho que, com justiça, colocou os Sauvignon Blanc da Nova Zelândia na lista dos melhores brancos do mundo. Um maracujá incrível no nariz, com toques cítricos e florais. Muito perfumado, acidez generosa e bem encaixada. Belíssimo branco para acompanhar conchas em geral e frutos do mar leves. Vendido por cerca de R$ 100 pela LVMH.

Pronto! Beber foi fácil, mas custei a achar tempo para escrever. Semana que vem tem mais.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O português do ano


Após um longo intervalo devido ao excesso de trabalho, estou de volta – e sem trazer um novo debate sobre aquele famoso crítico americano, conforme prometido. Desta vez quero falar de vinhos, mas por meio de um outro personagem: Carlos Lucas, que foi eleito enólogo do ano pela Revista de Vinhos de Portugal. Tive o prazer que conversar com Lucas recentemente. Ele também é responsável pelos rótulos da ViniBrasil, parceria da Expand com a Dão Sul no Vale do Rio São Francisco, no Nordeste brasileiro, uma região absolutamente inusitada para cultivar uvas viníferas.

Já provei, em ocasiões anteriores, diversos produtos que saíram das mãos de Lucas, que trabalha para a Dão Sul. Sobre um deles, o Quinta de Cabriz Escolha Virgílio Loureiro, comentei recentemente no post “Matizes” (ver abaixo). Já provei também o Pedro & Inês, este um Dão bem mais moderno, feito com um corte de Baga e Alfrocheiro, que é simplesmente delicioso; e o Four C, também moderno e muito sedutor. Infelizmente, ambos são bem caros: R$ 338 e R$ 368, respectivamente, na Expand.

De qualquer forma, Lucas é sem dúvida o enólogo da nova geração que melhor trabalha a região do Dão, que estava ficando para trás em relação ao Douro por ter sido lenta em se modernizar. É interessante a comparação que ele faz das três mais famosas áreas vinícolas portuguesas. “O Douro dá vinhos em um estilo muito internacional; o Alentejo, vinhos tipicamente portugueses; e o Dão, uma mistura dos dois”, diz. “Um ponto importante de destacar é que o Dão proporciona vinhos para a mesa de refeições. Na hora de escolher um rótulo português para acompanhar comida, nenhum técnico duvidaria em optar por um Dão.” Com o que, embora não seja técnico, concordo inteiramente. Boa parte da explicação para isso está na acidez mais acentuada, que ajuda muito na harmonização com comida. Lucas explica que o mosto das uvas no Dão geralmente apresenta pH de 3.4, enquanto no Douro está em 3.8 na mesma época.

Por razões óbvias, o vinho português sempre foi apreciado no Brasil. Mas no resto do mundo, em especial nos Estados Unidos, vinho português era apenas os fortificados do Porto. E só. Isso começou a mudar recentemente, de uns três ou quatro anos para cá, quando os produtos de mesa da terrinha entraram no radar dos críticos influentes – não vou citar o nome do dito cujo aqui outra vez, mas é ele mesmo e aquela outra revista de sempre. Só que os tais críticos concentraram seu trabalho no Douro, porque já conheciam o vinho do Porto que sai dali e porque os produtores locais estavam mais bem organizados para fazer um trabalho de relações públicas efetivo. Agora, parece que isso vai mudar. Lucas me contou que já estão marcadas para as próximas semanas visitas da equipe da Wine Spectator e de Mark Squires, que trabalha com Parker (pronto, falei), para conhecer os produtos do Dão. Pelo que conheço do gosto dessa turma, as notas talvez não sejam tão altas como as que o Douro tem conseguido. Mas acredito que serão bastante boas, com vários produtos acima de 90 pontos. Se for assim, será merecido.

Já no Vale do Rio São Francisco... bem, Lucas me falou com entusiasmo e brilho nos olhos do potencial do Nordeste brasileiro para vinhos. E definiu seu trabalho na ViniBrasil como “o projeto da minha vida”. Parece estranho, mas após uma hora de bate papo com ele, dá para entender. Lucas adora experimentar. Isso fica claro em duas de suas obras-primas: o Dourat, mistura de Touriga Nacional do Douro com Grenache do Priorato (Espanha), do qual são feitas apenas 1 200 garrafas por ano. Ou o Pião, um corte de Nebbiolo do Piemonte (Itália) com Touriga Nacional do Dão que proporciona apenas 1 000 garrafas anuais. Nunca provei nenhum dos dois, mas sei que ambos são caríssimos e badaladíssimos, verdadeiros vinhos “cult” disputados pelos aficionados de várias parte da Europa. Essa idéia de cortes de uvas originárias de países diferentes mostra como Lucas gosta de inovar e quebrar tradições. Acho isso sensacional. Quero que a boa tradição seja mantida em cada detalhe para que eu possa beber um vinho igual ao que se fazia há um século, igual ao que meus avós e bisavós tomaram. Mas quero também que, paralelamente, continue a ocorrer experimentações para que surjam coisas novas. Algumas serão ruins, mas outras podem ser maravilhosas.

O que está saindo do Vale do São Francisco, hoje, realmente não dá para chamar de maravilhoso. O Rio Sol é um vinho simples e o Paralelo 8, top do ViniBrasil, é apenas razoável para meu gosto. Os espumantes são notadamente inferiores aos da Serra Gaúcha. Mas aquele é um laboratório e tanto. Lucas diz que a uva Syrah adaptou-se muito bem e que, para sua surpresa, os mais recentes resultados com a Tempranillo estão causando entusiasmo. Lucas também detectou que o solo da região é livre da maioria das pragas que ataca as parreiras de uvas viníferas. Assim, planeja fazer um vinho com uvas de “pé franco”, como se chamam as plantas sem enxerto. Hoje quase todas as vinhas da Europa, Estados Unidos, Austrália etc. são de pés enxertados sob uma base (raiz) de parreira de uva de mesa (não uva vinífera), que é uma espécie resistente à filoxera, uma praga que arrasou os parreirais europeus no século XIX.

Se Lucas lograr produzir grandes vinhos no semi-árido nordestino, vai merecer o prêmio de melhor enólogo do mundo, não apenas de Portugal. Ele acha que pode. Tem méritos para merecer crédito.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O advogado no banco dos réus


Vou mudar o disco. Prometo. Mas antes disso, tocarei uma vez mais o hit Robert Parker aqui no blog. Ele é tema recorrente para qualquer um que escreva regularmente sobre vinhos, de modo que no futuro inevitavelmente voltará à pauta. Contudo, garanto que darei longas férias a Mr. Parker -- até porque há muitas outras coisas interessantes que quero abordar neste espaço. Só gostaria de deixar clara minha opinião sobre ele, porque o que escrevi nos últimos textos parece ter dado a impressão em alguns leitores de que sou contra o famoso crítico americano. Então vamos esclarecer de uma vez por todas o que penso dele.

Primeiro: acho o Parker um grande crítico e considero sua contribuição e seu legado para essa indústria excepcional. Ele abriu caminho para que o trabalho de analisar vinhos seja visto com seriedade e executado seguindo uma metodologia mais consistente. Embora praticamente tudo o que ele faz já existisse antes, essas coisas eram restritas a um mundinho fechado. Com Parker, o especialista em vinhos passou a ser útil e acessível ao consumidor comum. Ele também desbancou famosas vinícolas européias que há muito sobreviviam da fama e da falta de informação, mas que na realidade estavam elaborando produtos medíocres. E acertou em cheio ao recusar publicidade e se negar a degustar qualquer garrafa que seja enviada como presente de vinícolas. Se eu já recebo alguns brindes por aqui, imagino que deve ter fila de caminhão maior do que nos portos brasileiros em frente a sua casa para entregar mimos dos produtores. Parker aceita e bebe, mas não dá nota. Só pontua o que ele mesmo comprou.

Minha principal ressalva a ele diz respeito a algumas avaliações com as quais, humildemente e cá de baixo, discordo. Já tomei produtos com altíssimas pontuações de Parker, sobretudo da Argentina, Austrália, Estados Unidos e Espanha que considerei vinhos exagerados, pesados, sem complexidade e indignos de tantos adjetivos elogiosos. Vinhos de certa forma monótonos, unidimensionais, nada intrigantes e cansativos de beber em grande quantidade. Que eu pense assim não quer dizer nada. É problema meu. Só que alguns grandes especialistas, como Steven Spurrier, da conceituada revista inglesa Decanter, pensam igual a mim. Ou eu igual a eles, para ser mais exato. Essas bolas fora do Parker, no entanto, são exceções. Adoro muitos rótulos desses quatro países e concordo com a maioria das avaliações de Parker ou de seu time de colaboradores para vinhos originários deles ou de quaisquer outros lugares. Mas que às vezes Parker decepciona, decepciona. Pelo menos para mim.

É meio duro de engolir que a Wine Advocate, sua publicação, confira maior nota para um Cobos, da Argentina, do que a um Château Cheval Blanc, de Bordeaux, ou mesmo Romanée-Conti, da Borgonha. O Cobos é bom, é melhor mesmo que muitos franceses consagrados, mas para mim não chega aos pés dos grandes da França – e para não me acusarem de “eurocêntrico”, nem ao mesmo nível dos top da Califórnia, que são espetaculares. Uma coisa é tirar a máscara de vinícolas famosas que só fazem porcaria, o que é louvável. Outra é sair distribuindo 98 pontos por aí quando os melhores vinhos da Europa só conseguem tal nota em safras excelentes. Tenha dó.

Se é assim, por que Parker não substitui o gigantesco estoque de sua adega particular, que ele mesmo admite que é dominada por franceses, por uns malbecões? Até me candidato a dar uma mão. Se quiser trocar comigo, a gente faz negócio. Meio contraditório isso, não? É algo como "você tome o que eu digo, mas eu tomo só francês mesmo porque não sou bobo."

Depois, acho que existem alguns problemas que derivam da enorme influência de Parker, mas que a rigor não são culpa dele. São muito mais culpa das vinícolas e dos importadores e distribuidores de vinhos. Creio que nos últimos dez ou 15 anos emergiu sim uma onda de tentar fazer vinhos com muita fruta madura, concentração e madeira, porque produtos com esse estilo tendem a ganhar notas maiores não só do Parker, como da Wine Spectator e outras fontes de referência. E aí pode acontecer de uma vinícola que fazia vinhos medíocres tomar consciência, investir em tecnologia e melhorar, o que é ótimo. Mas também acontece de produtores que seguiam um estilo próprio e interessante, que tinham uma assinatura, jogarem isso fora para seguir a moda. É culpa do Parker? Não exatamente. A vinícola fez o que quis.

Outra: essa tendência de os consumidores só comprarem vinho pelas notas. “Ah, comprei uma garrafa que tem 93 pontos do Parker”. Ok, a nota tem lá sua utilidade, é um recurso que acho válido, mas um vinho é muito mais do que dígitos. Ater-se aos pontos leva a uma simplificação meio empobrecedora de um produto que é culturalmente tão rico e que mesmo em termos de qualidade é sujeito a muitas variáveis. Se for para comer com um pato assado, por exemplo, prefiro um Borgonha – não importa se tem 87 RP, 85 RP ou sei lá quanto – do que um Syrah australiano de 93 pontos. De novo, não é culpa de Parker que as pessoas utilizem dessa forma o material que ele produz.

Encurtando: é possível olhar a taça meio cheia ou meio vazia. Parker trouxe muitas coisas positivas para o mundo do vinho, mas tem seus pecados e seus efeitos colaterais. Fazendo as contas, acho que o saldo dele está no azul, com folga. Desde o documentário Mondovino, nunca vi um crítico de qualquer assunto ser tão julgado como Parker tem sido. Esse historiador e advogado de Baltimore (essas são suas formações acadêmicas) não sai do banco dos réus. E tome pedrada. Uma ou outra ele talvez até mereça, mas tem havido uma malhação exagerada e injusta.

Parker é meu crítico preferido? Não. Prefiro a Jancis Robinson e Steven Spurrier. Prefiro Eric Asimov. Ou Hugh Johnson. Minha lista é grandinha. Mas nenhum deles tem a mesma importância ou a mesma influência, é preciso reconhecer. Que bom que existe um Parker. Gosto de seu trabalho. Sou a favor do Parker na maioria das vezes. Só não preciso concordar com tudo o que ele diz, nem achar que ele acerta sempre. Alguém acerta?

PS.: Encontrei no site do Parker a transcrição de uma entrevista que o próprio concedeu em 2005. Para a turma que adora o Parker e ao mesmo tempo critica quem é “eurocêntrico”, transcrevo essa resposta do crítico:

“Virtualmente, todo o vinho que bebo por prazer é francês e minha adega reflete isso. Bordeaux, Vale do Rhône, Borgonha (particularmente os brancos), Champagne e, claro, os brancos da Alsácia dominam minha coleção. Eu também tenho um fraco pelos grandes Barolos e Barbarescos do norte da Itália e no Novo Mundo aprecio a riqueza dos melhores vinhos da Califórnia. Mas em grande medida me considero um francófilo e meus gostos vão na direção da cozinha francesa e vinhos franceses.”

E assim ficamos combinados que o clube dos eurocêntricos, do qual este humilde blogueiro faz parte, tem o prazer de considerar Robert Parker como presidente honorário.